10
de
setembro
Ciganos e o nomadismo: uma alternativa escolhida
Em toda a história da humanidade, nenhum povo ficou tão conhecido por suas andanças quanto o dos ciganos. Ciganos é o termo genérico utilizado para designar o conjunto da população que emigrou da Índia no século XI em direção a Oeste. Na Pérsia, uma grande parte deles teria permanecido no Império Bizantino por três séculos. De lá, dividiram-se em dois ramos migratórios: um atravessou o norte da África e o Egito, e o outro penetrou na Europa e nos Bálcãs.
Apesar de os lingüistas terem descoberto o local de partida desse povo através da comparação entre os dialetos que compõem a língua cigana, chamada romanês, e as línguas indianas, pouco se pode afirmar sobre sua origem. Alguns especialistas sugerem que eles pertençam a um grupo de viajantes muito antigo que nunca parou de se deslocar. Outros supõem que eram povos sedentários forçados a deixar as terras indianas devido ao movimento de expansão de novos grupos.
“Eles foram capazes de ocupar os quatro cantos do mundo: no século XV chegaram à Europa, no século XVI às Américas. A ocupação implica o deslocamento, assim, embora muitos ciganos ficassem nos lugares aonde chegavam, uma parcela grande seguia em frente”, conta a antropóloga Florencia Ferrari.
Esse tipo de deslocamento configura, segundo a antropóloga, apenas um lado do nomadismo para a cultura cigana. O outro lado está relacionado ao seu aspecto simbólico: “a viagem está associada ao modo de ser cigano, à sua cultura, ao seu pensamento. “Os ciganos fazem da viagem um traço cultural distintivo em relação aos gadjé (não-ciganos), sabendo que estes vão ver no nomadismo uma diferença”.
A cigana Jordana Aristicth, presidente da associação Cultural Mundial de Proteção à Criança Cigana, concorda que o nomadismo estabelece uma diferença. Em seu livro sobre a cultura cigana, ela conta que quando Deus criou o mundo, preservou um determinado grupo para conservar o amor à natureza e a terra. Mas Deus fez uma advertência: “os ciganos não poderiam ter o sentimento de cobiça e de avareza pelos castelos ou mansões, se assim o fosse, ficariam escravos da terra fixando-se nela, se igualando aos não-ciganos
O nomadismo também possibilita aos ciganos serem eternos estrangeiros, lembra Ferrari. Assim, no decorrer da história, eles aprenderam a se aproveitar da novidade e do mistério inspirados pela figura do errante para oferecer seus produtos e serviços. Não é à toa, que os ciganos sempre estiveram associados à compra e venda de produtos não encontrados na região, aos espetáculos de circo, dança e música, conclui a antropóloga.
Aristich acredita que essas profissões são as mais favoráveis ao seu modo de vida: “os ciganos, por serem um povo nômade e terem o sentido da liberdade, não poderiam adaptar-se em profissões rotineiras”. Para ela, adquirir profissões que “criam raízes” significa romper com seus princípios étnicos.
“O atributo de viajante define um cigano, ao passo que a imobilidade marca um não-cigano”, sublinha Ferrari. Para os ciganos, o deslocamento é um valor em si, que está associado a uma certa maneira de trabalhar, e por extensão a um modo de vida autônomo, independente, livre de horários, explica a antropóloga.
Esse zelo pela liberdade do povo cigano levou-os a serem mal interpretados e injustiçados pelos demais povos não-ciganos, enfatiza Aristich. “Por não contribuir no trabalho braçal, por não se fixar a terra e não se deixar escravizar, eles eram considerados inúteis aos demais povos. Não eram aceitos nas comunidades, sendo perseguidos e expulsos”.
Durante a consolidação dos Estados Nacionais na Europa, o nomadismo dos ciganos passou a ser visto com uma ameaça política. Estado e Inquisição desencadearam violentos mecanismos de perseguição. Deportações, torturas e matanças foram praticadas entre os ciganos até data recente. Acredita-se que meio milhão de ciganos tenham sido executados pelos nazistas na Segunda Guerra Mundial.
Essas perseguições foram responsáveis por grandes ondas migratórias de ciganos, inclusive para o Brasil. Apesar disso, não há como afirmar que o nomadismo cigano seja apenas uma reação às inúmeras expulsões que enfrentaram, analisa a antropóloga Florência Ferrari. “Se o cigano se viu obrigado a se deslocar, a viagem propriamente dita não foi motivo de sofrimento. Não se encontra no discurso cigano nenhum apego ao território, nenhuma saudade de um lugar ancestral. O deslocamento mostra-se uma alternativa escolhida”.
Anapaula Ziglio de Andrade
Jornalista, formada pela Escola de Comunicações e Artes da USP. Cursou o último ano de jornalismo no Institut de la Communication et des Médias da Universidade Stendhal em Grenoble. Da onde trouxe material para seu livro-reportagem Somos franceses- como vivem os ciganos na França do século XXI premiado na Expocom 2004.









